segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Pulp Fiction e Acarajé


Numa noite dessas em que não estava conseguindo dormir, resolvi levantar e colocar num papel algumas idéias que há algum tempo vinha me atormentando. Idéias fixas na cabeça são como serpentes, ou você as liberta ou elas te envenenam. Na verdade estava pensando em escrever algumas coisas insanas que colocaria numa revista com o nome de Pulp Fiction.

Bem, outro dia conversando com meu amigo André, tive essa idéia. Evidentemente, o nome não surgiu por acaso, numa de minhas já famosas reprises do famoso filme de Quentin Tarantino me veio esta idéia. Nada original – devem estar pensando – se bem que não pretendia produzir algo absolutamente original, isso pode soar como “clichê”, mas é a mais pura verdade, acreditem, a idéia era realmente aproveitar o sentido do termo e copiá-lo.

Bem, como estava dizendo, numa dessas noites de insônia, pareceu-me oportuno, enfim, escrever alguma coisa. Em princípio estava meio em dúvida sobre o que exatamente pretendia escrever. Não sabia se escreveria sobre um de meus sonhos, sobre os quais tinha algumas anotações, ou se criava alguma daquelas histórias que vez ou outra me ocorria contar para meus amigos e, às vezes, para crianças a fim de assustá-las, eram histórias como aquelas que há muitos anos atrás ouvíamos dos mais velhos em certas épocas do ano quando nos reuníamos em torno de uma fogueira para nos aquecer, comer pipocar, milho assado e, principalmente, ouvir histórias. Em geral, eram histórias de terror, e, eu adorava, embora morresse de medo. Aliás, se ainda me recordo, naquelas noites quando ia para casa, evitava a todo custo ir ao banheiro no meio da noite, só por precaução, rsrsrs (quando a coisa realmente apertava acordava minha irmã mais nova, que também ficava com medo, e a fazia ir comigo rsrss).

Era tudo muito assustador e divertido.

Mas voltando as noites de insônia, tenho que confessar: desde há muito tempo tenho tido problemas para dormir, na verdade não me recordo exatamente quando foi que comecei a ter insônia, aliás, não me lembro também quando foi a última vez que dormi bem sem a ajuda de barbitúricos – acho que é por isso que falam que a insônia causa perda de memória. Às vezes penso que foi minha experiência na polícia que me causou toda essa perturbação, penso que talvez o avistamento de todos aqueles cadáveres, de todo aquele sangue tenha me causado mal. O sangue, o cheiro do sangue é uma coisa muito forte. Na verdade, quando falo de sangue me lembro exatamente do cheiro que tem o sangue fresco, quente. Todo vez que recordo tenho uma espécie de “flashback” de uma chacina ocorrida no ano de 1997, aqui mesmo na minha cidade, minha viatura foi uma das primeiras a chegar ao local. Realmente uma cena terrível, não pelas pessoas mortas – naquela época já tinha meio que sublimado esse tipo de terror – mas, principalmente, pelo cheiro quente e doce do sangue que cobria todo o local, e quando digo que cobria não estou usando força de expressão, o sangue das pessoas assassinadas cobria literalmente todo o piso da casa como se fosse um imenso tapete vermelho. Quando “adentrei a residência”, rsrsrs, essa é o tipo de jargão que eu usava na época, simplificando, quando entrei na casa, meu sapato imergiu num líquido ainda quente e viscoso – caminhar sobre tanto sangue faz você experimentar uma terrível sensação, o sangue tem uma textura viscosa e ao mesmo tempo escorregadia. É assustadora a expectativa de uma possível queda – ainda saía fumaça dos corpos das vitimas – sabe, é uma coisa terrível, mas quando uma pessoa leva um tiro às vezes sai fumaça pelo buraco que a bala deixou, não sei dizer com certeza, mas acho que é o calor do corpo das próprias pessoas que solta aquela fumacinha, sabe como é? É semelhante àquela última fumacinha que os fumantes soltam quando tragam o cigarro. O sangue, aquele cheiro impregna na sua roupa, no seu corpo, no seu nariz e demora um bom tempo até você se livrar, ou se esquecer dele, aliás, acho que você nunca se livra totalmente dele, não por acaso me recordo tão vivamente desta cena ainda hoje.

Bom, mas pensando bem, isso é muito pessoal, soa meio que autobiográfico, e essa não era a idéia inicial do nosso projeto. Talvez uma história que contei certa vez, lá mesmo na casa do André para um garoto pentelho que tinha pegado nosso amigo Julio pra Cristo, rsrsr, o garoto alugou mesmo o Julio, ficava o tempo inteiro repetindo – japonês cara de chinês – japonês cara de chinês – o Julio já não agüentava mais. Na verdade nós todos estávamos achando aquilo tudo muito engraçado. Devo confessar que a galera acha mesmo que o Julio, apesar de ser japonês, se parece muito com um desses chineses que invadiram as pastelarias do Brasil nos últimos anos, um tipo bem magro, atipicamente amarelo com os cabelos espetados e fumando avidamente. Mas, em todo caso, resolvi levar o garoto para fora da casa e lhe contar uma história, em princípio não tinha a pretensão de assustar o garoto, somente distraí-lo enquanto os caras da banda ensaiavam a vontade. É, ainda não falei, mas meu amigo André já teve vários projetos, um deles incluía uma banda que surgiu como uma banda de rock que depois se transformou numa banda de Punk-rock, e, finalmente, numa de suas últimas investidas no “show business” musical, transfomou seu grupo numa banda de mangue beat; mas isso é pano pra outras mangas. Então voltando ao garoto, tive que improvisar, porque achei que o garoto era esperto demais para ouvir historinhas do tipo “bicho papão”, ou da “Cuca”, que certamente não iriam assustá-lo; por outro lado, a molecada hoje em dia não faz a menor idéia do que seja o “Sitio do Pica-pau amarelo”, muito menos Monteiro lobato. O fato é que tinha de ser criativo e improvisar alguma coisa ali na hora, sempre gostei desse tipo de desafio, criar e contar histórias. Recordo-me que certa vez dormi num dos ensaios da banda, ali mesmo no chão, em meio a um guitarrista e outro, acordei cantarolando uma melodia, dela fizemos uma letra e a música, assim de estalo, naquele mesma hora, foi louco. É certo que, nem a música, nem a banda fizeram muito sucesso, ou você já ouviu falar da banda Fique Peixe?

Caraca meu, não consigo lembrar bem da história que contei para o garoto, sei lá, só consigo me lembrar que tinha muito sangue, crânios partidos e, no final, eu apontava para algum canto sombrio logo ali, onde o sinistro aguardava, pouco depois da curva da rua, em meio à escuridão...

Ah, quanto ao título de Pulp Fiction, acho que quer significar isso mesmo, sabe, uma história louca, “non sense”, sem “The end”. Afinal de contas a idéia é criar, contar histórias e algumas delas são assim mesmo, como a vida, continuam no próximo bloco.

Ohhh, que sono, agora acho que vou dormir...

Imagem - Apocalipse - Silvano Brugnetto


JS MELO

Um comentário:

  1. muito bom!!!

    ficção, realidade, sem perder o bom humor!!

    só quem passou pela PM sabe o quanto é dificil conviver com tanta barbaridade....

    abraço jairão!

    nilson

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